Muito se fala em "bastar a si" como valor supremo dos tempos atuais. Mas de onde afinal viria essa máxima? Porque, qualquer um que consiga "se bastar" naturalmente tenderá a buscar o compartilhamento, comportamento esperável para a espécie social que somos. Os tempos atuais formam uma espécie de sociedade de crianças, estupidificada pela mídia de massas e que serve a propósitos nada casuais - pelo contrário, muito bem trabalhados ao longo de longas décadas de manipulação. A supervalorização do "eu" é doentia na medida em que nos impede de deixar o egocentrismo próprio da infância para trás, comprometendo diretamente a noção coletiva e a capacidade (que um dia tivemos) do exercício pessoal dentro de um grupo. Dentro de um meio que sobrevaloriza a vida individual, o fanatismo expressado por gangues e seitas contemporâneas parece ser uma manifestação ansiosa e infeliz de nosso oprimido espírito de grupo. Os bebês do século XXI estão sendo ensinados pelos próprios pais que podem todos ser algo como reis autônomos, centros de atenção, com todos os desejos atendidos à custa de toda uma estrutura material exclusiva para lhes atender. É uma distorção introjetada propositalmente. Por não seguir sua rota natural de amadurecimento, o indivíduo humano conhece muito cedo as dores da ausência de limites e desse deslocamento absurdo. O projeto do ultraconsumo preconiza que cresçamos alienados dos sacrifícios que o convívio exige, para mais tarde, privar-nos de coisas que nos são verdadeiramente recompensadoras (do ponto de vista biológico) como tempo livre para criar e o aprofundamento de amizades. Normalmente nem nos damos conta disso, e mesmo quando nos damos, não imaginamos se tratar de algo mudável. Essa dependência não surge por acaso, mas porque passamos a existir em função de uma lógica invisível bem acima de nós, onde o resultado do nosso florescimento pessoal não será a afirmação de nossas potencialidades, mas a nossa conversão em unidades produtoras/consumidoras. Agimos como células cujo DNA foi subjugado por um vírus. Evidentemente, essa condição patológica das massas não só é conhecida, como foi meticulosamente desenvolvida e administrada pelos reais beneficiários dessa estrutura. Existem ainda ferramentas adicionais para o controle de massas, facilmente detectáveis. Medicações psiquiátricas e religiões - elementos igualmente vendidos com a promessa de trazer felicidade - são não só bem-vindos como incentivados pelo sistema, por extinguirem fagulhas de descontentamento individual antes que emerja algum incêndio de proporção popular.
Solidão do amanhecer
terça-feira, 27 de outubro de 2015
quarta-feira, 23 de março de 2011
Sobre a utilização de animais
A utilização de animais é prática corrente neste mundo bárbaro e atrasado. Para tudo: alimentação, moda, companhia, entretenimento, pesquisa... Por quê? Talvez porque eles não tenham como se rebelar ou se sentar a uma mesa conosco para discutir a questão.
O humanismo que restringe a ética à própria espécie ainda é o grande valor na sociedade mundial. Mas é, para qualquer pensador decente do século XXI, uma evolução mal-acabada do teocentrismo medieval, podendo ser considerado uma doutrina defasada ética e intelectualmente.
"Comemos carne por que a natureza é assim" - dizem, esquecendo que em estado natural, também mataríamos o próprio irmão a pedradas se a carne fosse insuficiente, sem remorso e sem cadeia.
"A planta que você mata também é viva" - dizem, não observando a evidente hierarquia de que, quanto mais simples é um ser, mais restrito é seu sofrimento.
"Sem carne ficamos mal nutridos" - dizem, desconhecendo que diferentemente dos carnívoros, todos os animais onívoros podem se alimentar exclusivamente de vegetais (sabendo escolhê-los).
"Adoro carne" - dizem, ignorando que muita coisa considerada hoje anti-ética já foi considerada prazerosa, como a pedofilia na Grécia antiga ou o estupro na pré-história.
"É apenas um animal" - dizem, desconhecendo que mesmo divergindo dos animais em muitas coisas, na senciência (capacidade de sentir dor) somos essencialmente idênticos.
Será que nosso poder de fabricar armas, prédios, máquinas e idiomas nos dá o direito de utilizá-los como insumos? Nosso costume e prazer paladar justificam confinamentos cruéis (de suínos e aves) e a devastação de ambientes naturais (para pastagens de gado)?
"Agricultura também devasta florestas" - dizem, não sabendo que 3/4 da produção de soja e/ou milho são destinados à ração animal, e que são gastos em média 7 quilos destes grãos para produzir cada quilo de carne, e que 80% da área já devastada da Amazônia deixou de ser floresta para virar pastagem. Se soubessem isso, enxergariam o óbvio de que o consumo de carne é um gigantesco desperdício ambiental. Mesmo que se devaste até a última floresta do mundo, nutrir diariamente com carne uma futura população de 10 bilhões de pessoas é uma hipótese mais que trágica. É uma hipótese irrealizável.
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